TEXTOS POEMAS Alguns Poemas
HOJE
(Antônio Roberto Soares)
Hoje eu quero a loucura dos que amam.
Quero soltar as amarras do meu coração
E deixar que minha luz e meu ser
Envolvam quem se aproximar.Hoje eu quero a loucura das crianças que, inocentes,
Compartilham seus corpos com o mundo
E são irresponsáveis o suficiente
Para se entregarem completamente à dança da vida.Quero também a loucura das flores,
Exalando perfume e aceitando o risco de se abrirem totalmente,
Mesmo sabendo de sua curta existência no encontro com o vento.Quero o desequilíbrio do inesperado,
A instabilidade dos mares,
A imprudência dos raios,
A gritaria incontrolável dos pássaros.Quero estar absolutamente vulnerável ao amor,
Ao prazer e a dor,
Aos encontros e separações,
Ao afeto e ao abandono,
Ao planejado e aos “de repente”.Hoje eu só quero um compromisso:
O de não me comprometer com a sanidade do que pensam para viverem depois.
Quero estar disponível e louco
Para ser vivido pela vida
MILAGRES
(Ivana Andrés)
Tudo, enfim é um milagre?
Ou milagres não existem?
Existe aquele que diz
Que não existem milagres
Existem lágrimas, dores
Amizade, alguns amores
Existe a luta incessante
Pelo pão de cada dia
Existe a busca constante
Por momentos de alegria
Tudo isso é o lado humano
Não milagre, já dizia
Quem não crê que haja milagres
E vê nisso fantasia
Tudo, enfim é um milagre?
Ou milagres não existem?
Existe aquele que diz
Que tudo, enfim é um milagre
O sol, a lua, as estrelas
A noite depois do dia
A flor ofertando à abelha
Alimento e moradia
A lagarta transformando
O seu corpo em fantasia
O mar, o ar as montanhas
O vento e a ventania
E homens que sonham juntos
Com amor, paz e poesia
A PAZ NO MUNDO
(Geraldo Eustáquio de Souza)
A paz no mundo começa dentro de mim,
quando eu me aceito, de corpo e alma,
e reconheço meus defeitos, com paciência e calma,
e em vez de me fragmentar em mil pedaços
eu me coloco inteiro no que penso, sinto e faço,
passageiro no tempo e no espaço,
sem nada para levar que possa me prender
sem medo de errar e com muita vontade de aprender
A paz no mundo começa entre nós,
quando eu aceito o teu modo de ser sem me opor ou resistir
e reconheço tuas virtudes sem te invejar ou me retrair,
e faço das nossas diferenças a base da nossa convivência
e em lugar de te dividir em mil personagens
consigo ver-te inteiro, nu, real, sem nenhuma maquiagem,
companheiros da mesma viagem
no processo de aprendizagem do que é ser gente
A paz no mundo começa
quando as palavras se calam e os gestos se multiplicam
quando se reprime a vergonha e se expressa a ternura
quando se repudia a doença e se enaltece a cura
quando se combate a normalidade que virou loucura
e se estimula o delírio de melhorar a humanidade,
de construir uma outra sociedade,
com base numa outra relação,
em que amar é a regra, e não mais a exceção.
A IDADE DE SER FELIZ
(Geraldo Eustáquio de Sousa)
Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que se pode sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos
Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
com o entusiasmo dos amantes
e a coragem dos aventureiros
Fase dourada em que se pode criar e criar a vida
à imagem e semelhança de nossos desejos
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e desfrutar de tudo com toda a intensidade
sem preconceito nem pudor
Tempo em que cada limitação humana
é só mais um convite ao crescimento
um desafio a lutar com toda energia
e a tentar algo novo
de novo e de novo e quantas vezes for preciso
Essa idade tão especial e tão única
chama-se PRESENTE
e tem apenas a duração do instante que passa...
... doce pássaro do aqui e agora
que quando se dá por ele
já voou para nunca mais
E tem apenas a duração do instante que passa
Doce pássaro do aqui e agora
Que quando se dá por ele
Já voou para nunca mais.
A LENDA DAS AREIAS
(Tradição Sufi)
Vindo desde as suas origens, em distantes montanhas, passando por inúmeros
acidentes de terreno nas regiões campestres, um rio, finalmente, alcançou as areias do
deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar
esta de agora, mas se deu conta que suas águas mal tocavam a areia, nela
desapareciam.
Estava convicto, no entanto, de que fazia parte do seu destino cruzar aquele deserto,
embora não visse como fazê-lo. Então, uma voz misteriosa, saída do deserto arenoso,
sussurrou: - O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.
O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido,
enquanto que o vento podia voar, conseguindo desta maneira fazer a travessia.
- Arrojando-se com violência com vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim
desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir em ser absorvido pelo
vento e conduzido a seu destino.
Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, nunca fora absorvido. Não
desejava perder a sua identidade. Como poderia saber se a recuperaria mais tarde?
- O vento desempenha essa função: eleva a água, a conduz sobre o deserto e depois,
caindo em forma de chuva, a água novamente se converte num rio.
O rio recusava-se a acreditar nas areias.
- Pois assim é, e se não acredita, não se tornará outra coisa senão um pântano, e um
pântano não é, certamente, a mesma coisa que um rio. Você não pode, em caso
algum, permanecer assim. Sua parte essencial será transportada e formará um rio
novamente. Você é chamado assim, ainda hoje, por não saber qual a sua parte
essencial.
Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais
profundos do rio. Recordou, vagamente, um estágio em que ele, ou uma parte dele,
não sabia qual, fora transportada nos braços do vento, e que isso era uma coisa muito
natural.
O rio elevou, então, seus vapores nos acolhedores braços do vento, que o conduziu
para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o
topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante. E porque tivera suas dúvidas, o
rio pode recordar e gravar com firmeza os detalhes daquela experiência, e reconheceu
a sua verdadeira identidade.
Então, as areias sussurraram: - Nós temos o conhecimento porque vemos esta
operação ocorrer dia após dia, e porque nós, as areias, nos estendemos por todo o
caminho que vai desde as margens do rio até a montanha.
E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua
travessia está escrito na Areias.
DIANTE DE MIM
(Geraldo Eustáquio de Souza)
Diante de mim
tendo eu mesmo por testemunha
e sob pena de perder o respeito por minha própria palavra
eu me comprometo a buscar e defender Qualidade de Vida
em tudo o que eu faço e em todos os lugares onde eu esteja
E me comprometo a estar presente aqui e agora
a despeito do prazer ou dor que este momento me traz
fazendo a parte que me cabe do melhor modo que eu sei
sem me queixar do mundo nem culpar os outros
por meus acertos e fracassos
mas antes me aceitando imperfeito, limitado e humano
Mesmo que tudo recomende o contrário
eu me comprometo a amar, confiar e ter esperança
sem quaisquer limites nem condições
E embora eu só possa fazer pequeno
eu me comprometo a pensar grande
e a me preparar com disciplina e coragem
para os ideais que ainda espero e vou alcançar
sabendo que tudo começa simples e singelo
De corpo, cabeça e coração
eu me comprometo crescer
muito e sempre
de todos os modos possíveis
de todos os jeitos sonhados
até que a vida me considere apto para a morte
ESTATUTO DA CRIANÇA
(Luciano Luppi)
Artigo 1º
Fica decretado que a partir deste instante o mundo desconhecerá as dissimulações e
que a sinceridade despertará para a vida.
Artigo 2º
Fica decretado que infância será o nome de uma terra cheia de novidades e de muitas
aventuras.
Artigo 3º
Fica decretado que a vida será um brinquedo e que cada momento de prazer ou dor
fará parte da brincadeira.
Artigo 4º
Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar
livremente em direção ao sonhos.
Revogam-se as disposições em contrário, entrando o presente estatuto em vigor na
data de sua
Compreensão.
A ESTRELA VERDE
(Antônio Roberto Soares)
Era uma vez... Milhões e milhões de estrelas no céu. Havia estrelas de todas as cores:
brancas, lilazes, prateadas, douradas, vermelhas, azuis. Um dia, elas procuraram o
senhor Deus, Todo-Poderoso, o Senhor Deus do Universo, e disseram-Lhe: - "Senhor
Deus, gostaríamos de viver na terra, entre os homens." - "Assim será feito",
respondeu Deus. "Conservarei todas vocês pequeninas como são vistas, e podem
descer à Terra." Conta-se que, naquela noite, houve uma linda chuva de estrelas.
Algumas se aninharam nas torres das igrejas; outras foram brincar e correr com os
vagalumes, no campo; outras misturaram-se aos brinquedos das crianças e a Terra
ficou maravilhosamente iluminada. Porém, passado algum tempo, as estrelas
resolveram abandonar os homens e voltar para o Céu, deixando a Terra escura e
triste. - "Porque voltaram?" Perguntou Deus, à medida que elas chegavam ao Céu. -
"Senhor, não nos foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria, muita
desgraça, muita fome, muita violência, muita guerra, muita maldade e muita doença."
E o Senhor lhes disse: "Claro, o lugar real de vocês é aqui no Céu. A Terra é o lugar do
transitório, daquilo que passa, do ruim, daquele que cai, daquele que erra, e onde
nada é perfeito. Aqui, no Céu, é o lugar da perfeição. O lugar onde tudo é imutável,
onde tudo é eterno, onde nada perece." Depois de chegarem todas as estrelas e
conferido o seu número, Deus falou de novo: "Mas está faltando uma estrela. Perdeuse
pelo caminho?" Um anjo, que estava perto, retrucou: "Não, Senhor; uma estrela
resolveu ficar entre os homens; ela descobriu que o seu lugar é exatamente onde
existe imperfeição, onde há limites, onde as coisas não vão bem." - "Mas, que estrela
é essa?", voltou Deus a perguntar. "Por coincidência, Senhor, era a única estrela dessa
cor." - "E qual a cor dessa estrela?" insistiu Deus. E o anjo disse: "A estrela é verde,
Senhor. A estrela verde do sentimento da esperança."
E quando, então, olharam para a Terra, a estrela já não estava só. A terra estava
novamente iluminada, porque havia uma estrela verde no coração de cada pessoa.
INFINITAMENTE MAIS
(Geraldo Eustáquio de Sousa)
Se você acredita que pode, poderá
Porque vontade gera energia e a disposição de fazer é o começo da obra já concluída.
A descrença e o desânimo de hoje é o combustível que alimenta
o fracasso e a derrota em todas as épocas.
Os homens que aí estão de uma forma ou de outra são os mesmos que sempre aí
estiveram
E que com todas as suas manobras jamais conseguiram adiar por muito tempo
a marcha da humanidade rumo a uma vida melhor.
A crise que aí se encontra servindo como justificativa para a inércia de muitos
De uma forma ou de outra sempre esteve presente e nunca foi barreira
Porque jamais faltaram caminhos para quem se dispõe a andar.
Trabalho é o nome da magia que remove obstáculos
E entusiasmo a força que torna possível todas as realizações.
O que se faz um pouco a cada dia vale mais do que muito, feito em um dia só
Paciência e perseverança é o segredo de toda conquista.
Os tempos nunca parecerão difíceis quando a gente sabe aonde quer ir
E para lá se dirige com fé, amor e audácia.
Se a inteligência e a coragem ditarem as suas ações
Se o coração guiar cada um dos seus passos
Se o espírito a tudo presidir
Então você pode acreditar que pode
Porque somente o êxito será de fato algo inevitável em sua vida.
E você acreditando que pode, poderemos porque juntos somos
Infinitamente mais!
HOJE
(Antônio Roberto Soares)
Hoje eu quero a loucura dos que amam.
Quero soltar as amarras do meu coração
E deixar que minha luz e meu ser
Envolvam quem se aproximar.
Hoje eu quero a loucura das crianças que, inocentes,
Compartilham seus corpos com o mundo
E são irresponsáveis o suficiente
Para se entregarem completamente à dança da vida.
Quero também a loucura das flores,
Exalando perfume e aceitando o risco de se abrirem totalmente,
Mesmo sabendo de sua curta existência no encontro com o vento.
Quero o desequilíbrio do inesperado,
A instabilidade dos mares,
A imprudência dos raios,
A gritaria incontrolável dos pássaros.
Quero estar absolutamente vulnerável ao amor,
Ao prazer e a dor,
Aos encontros e separações,
Ao afeto e ao abandono,
Ao planejado e aos “de repente”.
Hoje eu só quero um compromisso:
O de não me comprometer com a sanidade do que pensam para viverem depois.
Quero estar disponível e louco
Para ser vivido pela vida
HOUVE UM INSTANTE
(Antonio Roberto Soares)
Houve um instante
Em que todas as músicas do mundo
Marcaram encontro com o pôr do sol
Em que a brisa pegou carona com o arco-íris
E foi testemunhar a chegada dos pássaros da primavera
Houve silêncio
Um silêncio terno e quente
Silêncio de mar
De amanhecer
Um perfume lento de todas as flores da terra
E uma paz maciamente infinita
Houve um instante
Em que tudo isto aconteceu ao mesmo tempo
E no mesmo lugar
No meu coração
Perguntei a Deus o nome de tanta poesia
A resposta veio à noite
Com as estrelas
Amor
INSTANTES
(Autor desconhecido)
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais
erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho
sido, na verdade bem poucas coisa levaria a sério. Seria menos higiênico, correria mais
riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria
mais rios. Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua
vida: claro que tive momentos de alegria. Mas se eu pudesse voltar a viver, trataria de
ter somente bons momentos, porque, se não sabem, disso é feita a vida: só de
momentos. Não percas o “agora”. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem
um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda - chuvas e um pára-quedas.
Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver , começaria a andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim do outono, daria mais voltas na minha rua, contemplaria
mais amanheceres e brincaria com mais crianças.
Se eu tivesse, outra vez, uma vida pela frente. Mas... já viram: tenho oitenta e cinco
anos, e sei que estou morrendo.
MULHER
(Antônio Roberto Soares)
Antes que mulher sou pássaro
Na viagem incontida de voar
Liberdade
Antes que mulher sou árvore
Criando raízes agasalhando frutos
Alimentação
Antes que mulher sou luta
No caminhar dos direitos
Pisar o chão
Quebrar correntes
Antes que mulher sou história
Guardiã da semente
Perpetuação
Antes que mulher sou conquista
Igualdade
Trabalho
Espalhação de vida
Antes que mulher sou flor
Na companhia feminina do arco-íris
Antes que mulher
Muito antes que mulher
Sou gente
QUANDO A VIDA ERA PLENA NÃO EXISTIA HISTÓRIA
(Chuang Tzu )
Na época em que a vida na terra era plena, ninguém dava nenhuma atenção aos
homens dignos, nem selecionava os homens capazes. Os soberanos eram apenas os
galhos mais altos das árvores, e o povo era como cervos na floresta. Eram honestos e
corretos, sem imaginar que “estavam cumprindo com o seu dever”. Amavam-se
mutuamente, e não sabiam que isso se chamava “amor ao próximo”. Não enganavam
a ninguém, e no entanto, não sabiam ser “homens de confiança”. Podia-se contar com
eles, e ignoravam que isto fosse a “boa fé”. Viviam juntos livremente, dando e
recebendo, e não sabiam que eram homens de “bom coração”, Por este motivo, seus
feitos não foram narrados. Não se constituíram em História.
SEPARAÇÃO
(Antônio Roberto Soares)
Quando da separação
Na primeira etapa fui vertigem
Um corpo sem rumo e nem prumo
Uma dor descendo a montanha
Na segunda etapa fui deserto
Uma alma vagando por caminho incerto
Espinhos nos pés
Na terceira etapa fui furacão
Rodopiando agruras
Mar bravo batendo em pedras
Na quarta etapa fui pântano
Afundado em saudades mornas
Lágrimas encharcando chão
Na quinta fui noite
Em sombras opacas e tristes
Ainda dor na escuridão
Na sexta fui rio
Na lavação das margens
Metade dor metade flor
Na sétima etapa fui aurora
Com as cores do arco-íris
E com cheiro de primavera.
VAI PROCURAR
(Antonio Roberto Soares)
Vai procurar no fundo do seu coração
motivos para não ser feliz, que você acha.
Você vai encontrar passados,
pão dormido,
roupa velha, mofada,
pedaços de brinquedo,
alegrias de papel,
arrependimentos onipotentes,
desejos frustrados de voltar a vida que é só para frente...
Você vai encontrar medos inventados pelas mães do mundo,
violências de pais,
castigos, promessas, vis encantamentos,
e culpas, mais culpas, máximas culpas,
encarregadas de curvar o peito e afastar você de Deus.
Você vai encontrar uma multidão de rostos contorcidos de inveja,
um monte de gente fazendo os caminhos por onde você deve passar.
Você vai encontrar conselhos, advertências, ameaças,
sutís proteções, elogios, gratidões, súplicas, presentes,
vozes de todos os donos e todos os escravos.
E no meio de tudo isso, você só não vai encontrar,
infelizmente,
você.
TAO-TE KING
XVI (Trecho)
Cria em ti o vazio até o grau mais elevado!
Preserva a tua serenidade até o estado mais completo!
Depois, tudo pode elevar-se simultaneamente.
Todas as coisas, por mais diversas que sejam,
retornam à sua raiz.
Retornar à raiz significa serenidade.
Serenidade significa voltar ao destino.
Voltar ao destino significa eternidade.
PROJETO DE ENCONTRO
(Luciano Luppi)
Pedra por pedra
Lágrima por lágrima
Energia
Suor
Alegria
Num arcabouço de músculos
No esboço da vida
Num espaço que muda
Na luta do instinto
Num tempo de aventuras
Num projeto de encontro
Na construção de mim mesmo
ORIGEM
(Luciano Luppi)
Somos livres para seguir a correnteza do rio e ganhar a imensidão do mar
Ou lutar contra a natureza da vida e encalhar às margens dos rios.
Entretanto
O mar e o graveto podre fazem parte do mesmo espetáculo:
- A viagem ao encontro de nossa origem
A PAZ NO MUNDO
(Geraldo Eustáquio de Souza)
A paz no mundo começa dentro de mim,
quando eu me aceito, de corpo e alma,
e reconheço meus defeitos, com paciência e calma,
e em vez de me fragmentar em mil pedaços
eu me coloco inteiro no que penso, sinto e faço,
passageiro no tempo e no espaço,
sem nada para levar que possa me prender
sem medo de errar e com muita vontade de aprender
A paz no mundo começa entre nós,
quando eu aceito o teu modo de ser sem me opor ou resistir
e reconheço tuas virtudes sem te invejar ou me retrair,
e faço das nossas diferenças a base da nossa convivência
e em lugar de te dividir em mil personagens
consigo ver-te inteiro, nu, real, sem nenhuma maquiagem,
companheiros da mesma viagem
no processo de aprendizagem do que é ser gente
A paz no mundo começa
quando as palavras se calam e os gestos se multiplicam
quando se reprime a vergonha e se expressa a ternura
quando se repudia a doença e se enaltece a cura
quando se combate a normalidade que virou loucura
e se estimula o delírio de melhorar a humanidade,
de construir uma outra sociedade,
com base numa outra relação,
em que amar é a regra, e não mais a exceção.
MISTURA FINA
(Luciano Luppi)
Tem horas em que eu gostaria de misturar tudo
Compor versos sustenidos
Escrever notas sem rima
Desenhar letras agudas
Esculpir sons violetas
Enfim
Compor um bicho sem pé nem cabeça
Assim como a estátua de um dó menor
Um poema azul celeste
E uma tocata em pedra sabão.
ABECEDÁRIO
(Luciano Luppi)
Quero escrever frases novas no livro da vida
Mas todas já foram escritas
Só encontro combinações diferentes
Para expressar as mesmas idéias e sentimentos
E contudo descubro que o que é novo para mim
É a minha percepção do mundo
Tudo já foi escrito eu é que não li nada ainda
Estou no abecedário da vida.
A CERIMÔNIA DO CHÁ
(Luciano Luppi - baseado num conto oriental)
Narrador
- Um professor de filosofia sobe uma alta montanha onde vivia um mestre oriental,
famoso por sua sabedoria.
Professor
- Mestre, venho de longe só para lhe encontrar. Sou um estudioso de vários temas
ligados à filosofia e às ciências. Sou respeitado no meu trabalho, mas trago muitas
questões cruciais sobre os mistérios da vida, e nem sempre os livros me dão uma
resposta convincente. Porque não temos certeza sobre a vida após a morte?
Porque não conseguimos saber para onde vamos, quem somos e onde estamos?
Porque as coisas mudam? Porque temos que mudar? Porque temos que perder?
Mestre
– Vejo que você está cheio de perguntas e questões. Por que não toma uma xícara
de chá?
Narrador
– O mestre, em silêncio, começa a servir o professor. O chá enche a xícara e
transborda, caindo pela bandeja. O professor espanta-se.
Professor
– Mas, o que é isto, mestre A xícara está repleta, o chá está derramando!
Mestre
- Sim, eu sei. Esta xícara está cheia como você, que também está repleto de
questões na cabeça e as mãos fechadas para a vida. É necessário abrir as mãos
para se relacionar com o mundo e, assim como a xícara, é preciso esvaziar um
pouco a sua mente, para que as respostas possam encontrar espaço.
CARTA À UM AMIGO DE AGORA
(Luciano Luppi)
Caro amigo: lamento que constantemente tenha recebido a visita de pensamentos tão
angustiantes. Mas eu compreendo: causa-nos um mal estar profundo quando as
nossas relações encontram-se como num abismo onde nem se enxerga o fundo. A
depressão ronda a nossa porta e a solidão instala-se como um posseiro em nosso
cotidiano. Alimentamo-nos de ilusões acerca das pessoas que fazem parte do nosso
mundo. Instauramos um teatro fantasioso dentro de nossa própria cabeça.
Vislumbramos cenas onde este ou aquele vai nos dizer tudo o que precisamos e
queremos ouvir, e possivelmente, receberíamos um abraço no momento de baixar o
pano. Entretanto, as nossas expectativas se esfacelam e caem no seio da frustração;
pois no teatro da vida não há ensaios nem estréias, apenas um contínuo e fascinante
jogo de descobertas. Por isso, rogo-lhe ter paciência com a própria vida e com todos
os que te cercam e procurar observar como as pessoas realmente são. Procuramos
demais por seres humanos acabados e perfeitos, e não nos damos conta de que nós
somos uma obra em construção. Em razão desta lacuna procuramos alguém que
represente um ideal de perfeição, e com isto deixamos de conviver, de fato, com quem
está na nossa frente. No entanto, esta é a pessoa mais importante na sua vida, aquela
com quem o convívio está se fazendo presente, seja na dor ou na alegria, pois ela
estará espelhando, assim como você, uma história de vida, algumas questões
irrespondidas e um projeto de encontro.
Do seu amigo de agora
Deste momento
ESTATUTO DOS SONHOS
(Luciano Luppi)
Fica decretado que todos os seres têm direito a sonhar. O sonho é livre e os caminhos
serão desenhados com a cor da esperança de quem quer seja.
Fica decretado que o sonho será feito com a substância do cotidiano, em quantidade
suficiente para alimentar as almas com o alento da vida.
Fica decretado que a aridez do mundo será combatida com a certeza de que as
gavetas serão abertas e os poemas que dormem empoeirados saltarão para os
corações carentes de fantasia.
Fica decretado que é preciso continuar sonhando, é importante acreditar na matéria da
imaginação,
é essencial que as idéias sejam vistas com os olhos da realidade e, sobretudo,
inexoravelmente, que os sonhos sejam realizados, passo a passo, no correr dos dias,
até o final.
Fica decretado que a esperança nada mais será que o sonho daquele que se mantém
acordado para a vida.
Fica decretado que o sonhador é um ser como todos somos, mas terá este um brilho
indecifrável e um sabor de liberdade emanará de sua boca.
Fica estabelecida a definitiva possibilidade de sonhar coisas impossíveis, que, inclusive,
poderão ser realizadas.
Fica proibido o uso da razão para conter os cantares, os sorrisos e os olhares para o
horizonte. A partir desta data a razão deverá ser usada como instrumento de apoio e
realização de todos as utopias, inclusive a da paz.
DENTRO DE NOSSA ORIGEM
(Luciano Luppi)
A melhor maneira de encontrar sentido na existência é mover-se em direção à própria
vida
Mover-se em todas as direções e de todas as maneiras
O princípio é movimento
E toda viagem é uma contínua e incessante busca de significados
Que todos nós compartilhamos na estrada comum onde a gente se encontra nos dias
que se passam
Para se encontrar um propósito é preciso voltar ao início de nós mesmos
É preciso dar fôlego as idéias
Alforria à esperança
Desatar os nós dos pesares amordaçados
Aceitar os desafios como dádiva e como aprendizes de um novo caminhar
Só depois perceberemos que a motivação sempre esteve presente
Guardada e protegida num canto de nossa alma
Dentro de nossa origem
No fundo de nossa espécie
O QUE FAÇO
(Luciano Luppi)
O que faço quando o nó das horas que não passam
Abocanha o meu cansaço?
O que faço se o estrago da palavra mal falada
Faz o seu ninho no olhar que corta?
O que faço do espaço outrora meu
Um dia nosso
Agora nada somente um troço?
O que faço quando acho que o dever de fato
É agradar o outro e nisso me embaraço?
O que faço?
Não sei se fico não sei se passo
Se me abraço me perdôo ou me desfaço
Não sei
O que faço?
ESPAÇO ABERTO
(Luciano Luppi)
Um dia me dei conta de que, para continuar crescendo, era urgente iniciar, dentro de
mim, uma faxina. Eu precisava de mais espaço aqui dentro e, no entanto, haviam
muitas lembranças inúteis e indesejáveis ocupando o lugar da alegria e dos sonhos.
Um canto estava abarrotado de ilusões, papéis de presente que nunca usei, algumas
mágoas, risos contidos e livros que nunca li. Espalhados por todos os lados tinham
projetos de vida abortados e decepções. Abri o armário e joguei tudo no chão. Foram
caindo: desejos reprimidos, olhares de crítica, palavras arrependidas, restos de paixão
e ressentimentos estúpidos. Mas existiam coisas importantes no meio de tudo: um
brilho de esperança, o amor maduro, algumas boas gargalhadas, momentos de ternura
e paz, desafios e bastante amizade. Não havia dúvida, bastava jogar no lixo tudo que
não servia mais para que eu continuasse crescendo. E depois, tratei de varrer todas as
recordações empoeiradas, passei um pano nos ideais, pendurei os sentimentos nobres
na paredes mais claras, guardei nas gavetas todas as boas lembranças, perfumei a
criatividade e abri a porta para que o meu espaço fosse invadido por algo que estava
faltando para o meu crescimento : a capacidade de recomeçar.
MILAGRES
(Ivana Andrés)
Tudo, enfim é um milagre?
Ou milagres não existem?
Existe aquele que diz
Que não existem milagres
Existem lágrimas, dores
Amizade, alguns amores
Existe a luta incessante
Pelo pão de cada dia
Existe a busca constante
Por momentos de alegria
Tudo isso é o lado humano
Não milagre, já dizia
Quem não crê que haja milagres
E vê nisso fantasia
Tudo, enfim é um milagre?
Ou milagres não existem?
Existe aquele que diz
Que tudo, enfim é um milagre
O sol, a lua, as estrelas
A noite depois do dia
A flor ofertando à abelha
Alimento e moradia
A lagarta transformando
O seu corpo em fantasia
O mar, o ar as montanhas
O vento e a ventania
E homens que sonham juntos
Com amor, paz e poesia
TEMPO DE FAZER
(Luciano Luppi)
A gente vai deixando de fazer certas coisas na vida, empurrando para depois o que é
essencial.
Deixamos de falar sobre os nossos fracassos e os nossos projetos de vida com as
pessoas com quem convivemos no dia a dia, deixamos de resolver algumas questões
importantes com as pessoas com quem compartilhamos um ambiente de trabalho,
deixamos de alimentar as amizades, de declarar o nosso amor a quem amamos,
fingimos não nos incomodar com as palavras ásperas e as atitudes agressivas dos que
nos rodeiam, deixamos de fazer o que gostamos para não incomodar alguém, adiamos
nosso compromisso com a solidariedade humana, com a nossa saúde e com a nossa
própria natureza.
A gente vai deixando de fazer certas coisas na vida, empurrando para depois o que é
essencial.
A gente deixa para depois para tentar evitar os desgastes, por receio de alguma
reação inesperada, para não sentir o desgosto, não enfrentar a solidão. Mas o tempo
passa e o nosso desejo de realizações se transforma numa inquieta e angustiante
espera do tempo que ainda nos resta de convivência. E de tanto se desgastar com as
tentativas de ludibriar o tempo, de jogar para frente a hora da conversa, a vida se
perde, e depois só nos resta esperar o tempo chegar e nos colher, insaciados e com
gosto de amargura na boca.
O TEMPO É AGORA
(Luciano Luppi)
Qualquer chão é o lugar
A terra é aqui
O tempo é agora
Amor produz amor
Que se plante então
CONSTRUTORES DE PONTES
(Luciano Luppi)
Procurei grandes homens que pudessem conduzir outros homens
No encontro de seus caminhos
Procurei nos manuais
Vasculhei as teorias
Corri ao final da estrada
Encontrei-os arquitetando sonhos e construindo pontes
Tinham o brilho dos que se escolheram e se alegravam em construir a ponte das
diferenças e dos desafios
Amavam a simplicidade e se empenhavam na construção da ponte da cooperação, da
disponibilidade e do comprometimento
Tinham fé na vida e, em cada gesto, traziam as ferramentas que colocavam de pé a
ponte da alegria e das realizações
Depois
Ao final da jornada
Descansavam
Ouvindo as estrelas e o coração dos homens.
TEM QUE SER AGORA
(Ivana Andrés)
Tem que ser hoje e tem que ser agora
Eu sei
Tem que ser aqui neste chão que eu piso
Eu sei
Que este é o lugar seja onde eu estiver
Tem que ser você
Homem ou mulher
Eu sei
Que, haja o que houver, será pro que der e vier
Quando se está junto da pessoa certa
Eu sei
Que, seja o que eu faça, faço o melhor que puder
Quando o coração diz: este é o lugar
Eu sei
Que tudo está certo e que eu posso o que eu quiser
TODOS OS PEDAÇOS
(Luciano Luppi)
Um lado de meus olhos vê tudo assim como é
Outro lado não sabe o que vê
Uma parte do que penso é só aquilo, e fim
Outra parte é assim: sem consenso
Um pedaço do que sinto é só explosão
Do outro pedaço eu não sei nada
Vivo tentando juntar os pedaços em um só
Mas eles se misturam fazendo arte
Quando desisto de ver as partes
Os iguais saltam na frente
E o que é inteiro e completo se faz
PROCURAM-SE
(Luciano Luppi)
Procuram-se!
Procuram-se parceiros no sonho de construir um mundo absolutamente melhor
Com os pés no chão e o olhar para além do que conhecido está
Que tenham o dom de enxergar o vazio e desenhar o impensável
Que saibam encontrar coisa ou pessoa de muita valia em tudo que humano seja
Procuram-se parceiros para reiventar os modos todos de se fazer acontecer
Com a sutileza das boas palavras na boca e a força do olhar que tudo vê
Procuram-se parceiros para cultivar o amanhã com o respeito que se deve ter com a
terra de agora
PROCURAM-SE
(Luciano Luppi)
Procuram-se!
Procuram-se parceiros no sonho de construir um mundo absolutamente melhor
Com os pés no chão e o olhar para além do que conhecido está